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Imagina-se que a felicidade plena e o sentimento de realização são alcançados na conquista de um bom emprego, na conclusão dos estudos, no privilégio de ser sorteado na loteria, no sucesso de um romance ou na tão esperada chegada da maioridade e com ela todos os benefícios e responsabilidades. Imagina-se que para viver bem é preciso morar, vestir e aparentemente sempre bem estar. Imagina-se também que um bom corpo revela uma boa saúde. Que um belo carro revela poder. Que a profissão revela a dedicação. Que o modo de pensar revela a forma de agir. Que as fortes amizades nunca irão partir. Que os pais podem até se decepcionar, mas nunca nos abandonar. Que o seu namorado não vai te trair. Que as férias vão sempre nos distrair. Que o dia da colheita sempre demora a chegar. Que remédios vão nos fazer melhorar. Que a educação é o segredo da boa convivência. Mas que o desrespeito pode trazer graves consequências. Imagina-se que no olhar transmitimos todos os pensamentos. Que um belo momento nunca cai no esquecimento. Que a simplicidade nos enriquece, nos deixa cheios de bons sentimentos. Que as perguntas nem sempre tem respostas. Que coincidências existem. Que surpresas nem sempre são surpreendentes.
Imagina-se que racismo é crueldade e democracia reflete as opiniões em sua pluralidade. Que se preservarmos o ambiente nossos filhos conhecerão uma rica diversidade. Imagina-se que nossos filhos não terão filhos. Que xenofobia também é exclusão. Que a violência é fruto da rejeição. Que bons exemplos devem ser seguidos. Que a perseverança é a chave do progresso. Mas a insistência deve caminhar ao lado do bom senso. Imagina-se que “e-mails” jamais terão o poder de substituir uma carta. Que atração está mais ligada à beleza e à conquista. Que quem é do inverno se perde no verão. Que as fotografias revelam sempre os bons momentos. É que o intervalo entre cada fato é o tempo necessário para sofrer, lutar e vencer as dificuldades. Imagina-se que os programas sensacionalistas tem maior audiência. Que comer “fast foods” nos prejudica, se for com frequência. Que quando se faz uma boa ação não se espera recompensa. Que cachorros são leais e gatos são interesseiros. Que precisamos de diversão, mas não o dia inteiro. Que um diálogo vale mais que uma atitude de desespero. Que há como ser feliz sem esbanjar dinheiro. Que cantar alivia a alma e os que estão ao redor sentem a calma.
Imagina-se que se expressar é um desafio. Que para seguir um ritmo é preciso coordenação. Que um sorriso sutil merece atenção. Que aniversários vem e vão, e a idade nos prende às formalidades. Que nos casamos por afeição e com comprometimento, e não por impulso ou compaixão. Imagina-se que perdoar é ser forte. Que a deficiência no coração reflete uma sociedade com má formação. Que entrar na universidade reflete maturidade. Que as músicas que ouvimos fazem parte da personalidade. Imaginamos, deduzimos e inventamos tudo, sempre. Mas seria alguém capaz de renunciar o seu tempo para dedicar-se ao agradecimento? Por mais imagináveis e existentes que sejam as coisas, nem tudo é real. Nesse mundo passageiro em que o poder e a boa fama são protagonistas de uma novela temporária, o que realmente deveria ser valorizado torna-se um objeto sem valor material. Aqui vai a crítica, aqui fica o protesto. Se você não acredita dificilmente terá sucesso.
Imagina-se que a religião está ligada à crença. Que seus familiares nem sempre parecem ter o mesmo sangue. Que algumas pessoas nos fazem felizes apenas com sua presença. Para entender não é preciso ver e muito menos aceitar: ela, sem pedir licença para entrar, vai crescendo em sua vida, crescendo com você. Independente de todas as suas imaginações e de todas as suas expectativas ela te fortalecerá, se deixar a porta aberta, sutilmente vai entrar. Na sua humilde grandiosidade ela nos faz enxergar o invisível, abraçar o impossível, não ter medo do imprevisível. Muitos nunca sentiram, outros desistiram de regá-la. Triste. Se ela pudesse mais fortemente se manifestar... e se manifesta. Mas poderia assustar. Independente do que precisa, ela te permite sonhar. Independente do seu sonho, ela te permite planejar. Independente dos imprevistos, ela te faz se adaptar. Sei que em mim ela é inabalável. Ela é a ponte, a estrada, o caminho que nos leva ao Império, ao ponto fraco do Sultão. Posso às vezes fraquejar, mas em minha vida ela vai sempre reinar.
Ana Carolina Chin







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