quinta-feira, 22 de julho de 2010
A beleza calada
Pela manhã, um tanto quanto cansado e indisposto, ele levanta da cama. O café não é objeto de rotina, mas serve como uma forma de adiar suas tarefas e, consequentemente, o tempo. A leitura faz parte do cotidiano, se não antes, agora sim. Sente falta do silêncio, afinal desde que abre os olhos as vozes falam em sua mente, algumas autoritárias, exigentes; outras suaves e encorajadoras. Ele veste-se para mais um dia de incansável trabalho, quase sempre na calma da monotonia corre seu dia. No entanto, a maré mansa do cotidiano o faz se sentir, se não leve, ao menos centrado. A ideia de novo dia, nova oportunidade de contato com outros que não ele mesmo e suas vozes interiores, o faz sentir vivo, alegra-se, enfim. As poucas palavras trocadas no ambiente profissional são suficientes, nunca redundantes ou desperdiçadas.
Uma estagiária em especial chama sua atenção, justamente pelas atitudes não tendenciosas, pela descrição natural e visível, e pela beleza calada e uniforme; semelhante em todos os aspectos a ele próprio. Nunca conversaram, mas se comunicam e entendem-se muito bem diariamente. Sua insuportável, mas humilde insegurança impede uma possível aproximação. Os olhares trocados, propositalmente, manifestam real interesse da parte singela e feminina evidenciada no lado oposto da moeda. É o apogeu do seu sentimento de estar vivo.
A tarde chega e com ela sua volta para casa, sempre solitário, mas dialogando muito, com as vozes que insistem em dar opiniões sobre sua vida. Enquanto aguarda o transporte alcançar seu destino, mergulha nas páginas luminosas de livros, ou na ausência deles fixa o olhar para fora da janela, sua mente viaja pelo mundo e pelos seus desejos reprimidos por timidez dentro de si. Seu corpo assume o piloto automático. Em casa, finalmente, acaricia seu mais fiel companheiro, o qual também se comunica fluentemente bem e até recebe respostas muito carinhosas de seu singelo e semelhante parceiro de vida, o cachorro. Por ter se alimentado o suficiente durante o almoço, seu jantar não passa de pães, bolos ou cereais. Ele tira os sapatos, descansa por rápidos dez ou quinze minutos no sofá em frente à televisão, porém não presta atenção total nos telejornais. Levanta-se, vai até o quarto, muito bem organizado desde o momento em que acordou e o arrumou.
Gostava de ser perfeccionista, com tudo. Objetos, pessoas e atitudes estavam inclusas na lista da surreal perfeição tão sonhada. No banho desliga-se do mundo, do seu eu, das vozes. Antes de dormir a leitura reclama sua ausência, mesmo que de poucas horas. Junto aos romances pensa em seu futuro, não consegue. A mania da leitura pressupôs, desde muito cedo, o desejo inconsciente da escrita. Em sua mesa de trabalho procura por seus rascunhos, considera-se um escritor de gaveta, amador. Nunca teve coragem de publicar suas poucas obras, já que não escrevia com tanta frequência. Seus poemas e prosas, ao contrário dos livros que lia, já estavam acostumados; viviam das pausas do tal escrevinhador. Cansado e sonolento, o nobre rapaz deita-se na cama, mas não consegue dormir de imediato, as vozes ainda opinam. Sobre tudo, principalmente e mais especificamente sobre a tão admirável e semelhante estagiária, sabia seu nome mesmo que nunca o tivesse pronunciado. Ela e seu respectivo nome não saíam da sua cabeça. Quando percebe seu corpo remexer novamente já é dia, costuma acordar pouco tempo antes do despertador, uma das causas possíveis para tal acontecimento é seu instrumento mais usado, o perfeccionismo. As vozes voltam a falar, agora sobre seus deveres e atividades do mais novo dia que nasceu. Ele imagina se a estagiária também toma um café não rotineiro, mas logo se distrai, tem a certeza de que irá se comunicar com ela brevemente. Mais uma chance chegou de velha rotina mudar.
Texto: Ana Carolina Chin - 08/04/2010
Fotografia: Juliana de Oliveira
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